May 2, 2019

Trabalhar no Google: não tão legal quanto parece?

Trabalhar no Google: não tão legal quanto parece?

"Sou agradecida por ter saído do Google e estar agora em uma companhia onde sou respeitada."

Este tuíte, da engenheira Liz Fong-Jones, foi apenas um dos muitos que utilizaram a hashtag #NotOkGoogle (uma referência ao comando de ativação do assistente pessoal da empresa) nas últimas semanas, como forma de protestar contra o que funcionários e funcionárias descrevem como uma política "sistêmica" da empresa de retaliação contra quem tenta se expressar de forma contrária aos seus interesses, em questões sensíveis, como uso de tecnologia de inteligência artificial para fins militares.

No ano passado, trabalhadores e trabalhadoras do Google já haviam se mobilizado contra um projeto da empresa para o Pentágono, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Agora, o mesmo tem acontecido por conta de uma aproximação do Google com a Lockheed Martin, gigante americana fabricante de armamentos de guerra, como aviões caça e mísseis de longa distância. Segundo e-mails obtidos pela Bloomberg, a divisão de computação em nuvem do Google planejaria aumentar drasticamente a sua receita por meio de uma parceria com a Lockheed.

Mas talvez o mais perturbador seja a maneira como a empresa tem tratado funcionárias e funcionários que expressam seu descontentamento. Segundo uma série de relatos, dentro Google, que em seu surgimento tinha como mote e lema público "Não Seja Mau", tem prosperado uma cultura que promove a retaliação a essas vozes questionadoras, na forma de assédios, remoções de pessoas para outras áreas da empresa, prescrições de ausências médicas forçadas etc.

Publicamente, a empresa afirmar levar a questão a sério, proibir retaliações, e oferecer múltiplos canais para que funcionários e funcionárias relatem problemas internos. Mas, segundo múltiplos relatos, essa suposta preocupação do Google não se reflete em sua cultura gerencial.

Duas funcionárias que vêm liderando o movimento de trazer à tona essas denúncias, Meredith Whittaker e Claire Stapleton, afirmam terem sido punidas por conta disso. Whittaker, que pesquisa ética aplicada ao uso de inteligência artificial, disse ter ouvido de seu gestor que o seu trabalho não "se encaixava mais" nos planos da divisão, e Stapleton, que atua na divisão de marketing do YouTube, afirma ter sido rebaixada de cargo, e depois recomendada a tirar uma licença médica que ela não havia pedido. Depois de ter buscado aconselhamento jurídico, seu rebaixamento foi revertido ("pelo menos no papel", ela diz), mas Stapleton diz que o ambiente segue "hostil" e que ela pensa em pedir demissão todos os dias.

"Mais do que nunca, precisamos rejeitar a retaliação, e rejeitar a cultura de medo e silêncio que a retaliação cria", diz um e-mail das organizadoras do evento que envolveu funcionários e funcionárias insatisfeitas do Google, e a que a Bloomberg teve acesso. "O que está em jogo é importante demais."

A disputa agora tem chegado às instâncias de legislação trabalhista do governo americano, também, onde ex-funcionários já começaram a submeter queixas formais sobre as práticas de retaliação da empresa. Na contramão, advogados do Google pedem ao governo, segundo a Bloomberg, maior autonomia para atuar contra a organização de movimentos como os liderados por Whittaker e Stapleton utilizando os sistemas de comunicação internos da companhia.

"Isso é um padrão, esses são problemas sistêmicos, e só mudarão se falarmos a respeito e agirmos juntas e juntos", escreve Stapleton.

E você, já teve problemas semelhantes de retaliação de gerentes na empresa em que você trabalha ou já trabalhou? Deixe sua mensagem nos comentários, ou se preferir, nos envie um e-mail para contatohackpedia@gmail.com. A sua identidade será preservada!

Foto por Paweł Czerwiński para o Unsplash