Uma doença fatal espalhando-se rapidamente por um país devastado pela guerra civil e pela miséria econômica, enquanto médicos que atuam na contenção da epidemia são atacados por milícias, que os acusam de atuar em favor de uma suposta manipulação do governo. Esta é a situação na República Democrática do Congo (RDC), na África Central, com o mais recente surto de Ebola.

Nos últimos dois meses, o número de casos registrados da doença no país dobrou, ultrapassando os 2 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que atua na tentativa de conter o espalhamento do vírus. O Ebola já matou 1,346 mil pessoas desde o início do surto, em julho do ano passado.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, chefe da OMS, afirma, sobre a gravidade da situação, que “o mundo nunca viu algo assim”, destacando que os diferentes elementos da crise compõem uma “tempestade perfeita”.

O epicentro do Ebola se localiza nas províncias de Kivu e Ituri, ao norte da RDC, onde conflitos armados mataram, desde 1997, cerca de seis milhões de pessoas, e deixaram outros milhões sem lar. A área é ainda hoje o palco de intensa disputa e conflitos políticos, de milícias que se opõem ao governo central – e que contam suas próprias versões da história sobre o Ebola, como a ideia de que a doença não existe, que seria parte de um suposto esquema político.

Recentemente, o governo do Congo proibiu que habitantes dessas províncias do norte votassem, por conta do Ebola, o que inflamou ainda mais as teorias da conspiração.

Como consequência, médicos na linha de frente do trabalho da OMS têm sido vistos com desconfiança pela população, e em alguns casos até atacados e morto, como foi o recente caso do epidemiologista Richard Mouzoko, baleado e morto no dia 19 de abril na cidade de Butembo, por homens que, segundo relatos, teriam gritado “O Ebola não existe!”

Com a desconfiança crescente, parte da população se recusa a receber vacinas experimentais contra o vírus, fazendo acelerar o seu espalhamento pela RDC e propiciando sua penetração em outras nações africanas fragilizadas, como Ruanda e Uganda.

Apesar dos ataques e do financiamento limitado para o combate ao Ebola, Adhanom Ghebreyesus, da OMS, destaca a coragem e o comprometimento dos médicos que atuam hoje no Congo, arriscando suas vidas na linha de frente, correndo o risco de ser mortos por milicianos ou infectados pelo vírus.

“Eles poderiam ter dito ‘tire a gente daqui, não queremos arriscar as nossas vidas’”, diz Adhanom. “Mas eles não disseram isso. Disseram ’Nós vamos lutar’ e isso me faz sentir humilde e orgulhoso.”

Fonte: Nature
Imagem do post: UN Photo/Martine Perret