June 5, 2019

“O mundo nunca viu algo assim”, diz chefe da OMS sobre surto de Ebola na África

“O mundo nunca viu algo assim”, diz chefe da OMS sobre surto de Ebola na África

Uma doença fatal espalhando-se rapidamente por um país devastado pela guerra civil e pela miséria econômica, enquanto médicos que atuam na contenção da epidemia são atacados por milícias, que os acusam de atuar em favor de uma suposta manipulação do governo. Esta é a situação na República Democrática do Congo (RDC), na África Central, com o mais recente surto de Ebola.

Nos últimos dois meses, o número de casos registrados da doença no país dobrou, ultrapassando os 2 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que atua na tentativa de conter o espalhamento do vírus. O Ebola já matou 1,346 mil pessoas desde o início do surto, em julho do ano passado.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, chefe da OMS, afirma, sobre a gravidade da situação, que “o mundo nunca viu algo assim”, destacando que os diferentes elementos da crise compõem uma “tempestade perfeita”.

O epicentro do Ebola se localiza nas províncias de Kivu e Ituri, ao norte da RDC, onde conflitos armados mataram, desde 1997, cerca de seis milhões de pessoas, e deixaram outros milhões sem lar. A área é ainda hoje o palco de intensa disputa e conflitos políticos, de milícias que se opõem ao governo central – e que contam suas próprias versões da história sobre o Ebola, como a ideia de que a doença não existe, que seria parte de um suposto esquema político.

Recentemente, o governo do Congo proibiu que habitantes dessas províncias do norte votassem, por conta do Ebola, o que inflamou ainda mais as teorias da conspiração.

Como consequência, médicos na linha de frente do trabalho da OMS têm sido vistos com desconfiança pela população, e em alguns casos até atacados e morto, como foi o recente caso do epidemiologista Richard Mouzoko, baleado e morto no dia 19 de abril na cidade de Butembo, por homens que, segundo relatos, teriam gritado “O Ebola não existe!”

Com a desconfiança crescente, parte da população se recusa a receber vacinas experimentais contra o vírus, fazendo acelerar o seu espalhamento pela RDC e propiciando sua penetração em outras nações africanas fragilizadas, como Ruanda e Uganda.

Apesar dos ataques e do financiamento limitado para o combate ao Ebola, Adhanom Ghebreyesus, da OMS, destaca a coragem e o comprometimento dos médicos que atuam hoje no Congo, arriscando suas vidas na linha de frente, correndo o risco de ser mortos por milicianos ou infectados pelo vírus.

“Eles poderiam ter dito ‘tire a gente daqui, não queremos arriscar as nossas vidas’”, diz Adhanom. “Mas eles não disseram isso. Disseram ’Nós vamos lutar’ e isso me faz sentir humilde e orgulhoso.”

Fonte: Nature
Imagem do post: UN Photo/Martine Perret