April 29, 2019

Pressão por entregas rápidas e controle de qualidade relapso da Boeing podem ter resultado em acidentes com 737 Max

Pressão por entregas rápidas e controle de qualidade relapso da Boeing podem ter resultado em acidentes com 737 Max

Na foto: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aperta a mão do CEO da Boeing, Dennis Muilenburg.

O que está por trás dos trágicos acidentes envolvendos aviões da fabricante americana de aeronaves Boeing? Uma reportagem do jornal The New York Times, que ouviu fontes dentro da empresa, gente responsável pelo controle de qualidade nas linhas de produção, sugere que uma gestão excessivamente focada em prazos – em detrimento de protocolos mais rigorosos de segurança e qualidade – pode ter contribuído para os acidentes fatais envolvendo o modelo 737 Max, na Indonésia e na Etiópia, que mataram 346 pessoas.

A reportagem ouviu mais de uma dezena de ex-funcionários e funcionárias, entre eles um ex-gerente de controle de qualidade da Boeing que atuou em uma das plantas da empresa, no estado americano da Carolina do Sul, na montagem de modelos 787 Dreamliner, considerados "joias da coroa" da frota da Boeing e um dos grandes sucessos de venda da companhia, por conta de sua fuselagem mais leve que propicia economia de combustível às operadoras.

O ex-funcionário, John Barnett, diz ter encontrado ao longo do seu período na empresa uma série de problemas de controle de qualidade, que foram minimizados por seus supervisores, como a presença de peças metálicas soltas, restos do processo de montagem, dentro dos aviões, em regiões sensíveis, próximas a painéis e fiação elétrica. Peças que, num contexto de grande vibração – como é o caso das decolagens – poderiam se movimentar e danificar sistemas críticos do avião.

Barnett não foi o único ex-funcionário a relatar problemas. Como descreve a reportagem do New York Times, foram várias as denúncias, algumas delas confirmadas por autoridades regulatórias americanas. Além da ocorrência desses objetos soltos e detritos, que chegaram a causar interrupções no fornecimento para a Força Aérea Americana e para a Qatar Airways, há ainda suspeitas de instalação de peças defeituosas em aeronaves e até o uso de goma de mascar para colar uma peça não-crítica no interior de um avião.

dreamliner
Um avião modelo 787 Dreamliner, da Boeing: questões de segurança apareceram logo após o lançamento comercial

Segundo os ex-funcionários, há uma cultura dentro da empresa de supressão das denúncias, de retaliação, demissão e até casos de assédio moral sobre pessoas que reportam falhas a seus superiores ou a autoridades regulatórias. A Boeing nega, e processou alguns desses ex-funcionários. A empresa, que segundo e-mails internos revisados pela reportagem, principalmente após os acidentes com os 737 Max, tentou reforçar o trabalho de inspeção por peças soltas e detritos, ressalta por meio de porta-voz a qualidade do trabalho feito na fábrica da Carolina do Sul, e que é possível casar velocidade de entrega com qualidade e segurança dos aviões.

O 787 Dreamliner nunca protagonizou um acidente fatal, e é um avião considerado confiável e utilizado pelas maiores operadoras. Ainda assim, cerca de um ano após o seu lançamento comercial, realizado após longos atrasos, toda a frota foi paralisada por conta de um incêndio na bateria de uma aeronave operada pela Japan Airlines, que estava estacionada no aeroporto de Boston, em janeiro de 2013.

Infelizmente, nem todos esses problemas – nem os acidentes fatais com os 737 Max – parecem ter afetado significativamente essa cultura empresarial focada na otimização das entregas de aeronaves no menor tempo possível. A partir deste ano, a quantidade de Dreamliners produzidos por mês subiu de 12 para 14, ao mesmo tempo em que a empresa anunciou a demissão de cerca de 100 posições de controle de qualidade na problemática fábrica da Carolina do Sul, segundo o New York Times.

737max
Um avião modelo 737 Max, da Boeing. Problemas com sistema de ajuste automático do ângulo de ataque causaram dois acidentes fatais em um intervalo de 5 meses.

Nos casos dos acidentes fatais com os 737 Max na Indonésia e na Etiópia, as indicações preliminares indicam que uma falha no sistema responsável pelo ajuste automático no ângulo de ataque da aeronave – chamado MCAS e desenhado para evitar que ela empine demais o nariz e perca a sustentação – derrubou os dois aviões. O MCAS dependia de um único sensor, dos dois responsáveis pela medição do ângulo de ataque da aeronave, para funcionar – projeto considerado falho por engenheiros aeronáuticos. Suspeita-se que no caso dos 737s acidentados, o MCAS tenha recebido informações equivocadas desse sensor, e supondo que o nariz do avião estivesse apontado mais para cima do que realmente estava, ao ajustar para baixo, tenha colocado os Boeings em rota fatal de colisão contra o solo, ignorando os comandos contrários dos pilotos.

Aqui, as histórias se conectam. Após os acidentes, um informante não identificado citado em reportagem da CNN falou ao órgão regulador da aviação americana já ter visto danos aos sistemas elétricos dos sensores que alimentam o MCAS com dados. A causa? Objetos e detritos residuais dentro do avião.

Leia aqui a reportagem completa do New York Times sobre os problemas na fábrica da Boeing na Carolina do Sul.

Assista à declaração do CEO da Boeing sobre os acidentes com o 737 Max (em inglês)

Veja aqui um infográfico interativo sobre os problemas com o sistema MCAS do 737 Max.

Não deixe de seguir a Hackpedia no Facebook para mais notícias como esta, e de escrever seus comentários sobre o texto logo abaixo!