October 14, 2019

Documentos provam relação entre Bill Gates e bilionário acusado de gerenciar rede de tráfico sexual de menores

Documentos provam relação entre Bill Gates e bilionário acusado de gerenciar rede de tráfico sexual de menores

Documentos, entre eles e-mails e fotografias, obtidos pelo New York Times comprovam que o cofundador da Microsoft e bilionário filantropo Bill Gates manteve uma relação mais duradoura e profunda com Jeffrey Epstein – o também bilionário acusado de abusar de menores e de manter uma rede de tráfico sexual de crianças – do que Gates havia admitido anteriormente.

Epstein foi encontrado morto em sua cela de prisão em Nova York, enforcado, no dia 10 de agosto de 2019, em um aparente suicídio – tese contestada pelos advogados de defesa, que questionam o laudo da necrópsia, assim como o fato de câmeras de segurança em torno da cela de Epstein terem parado de funcionar no dia da morte dele. A lista de poderosos conectados a Epstein é vasta, e inclui o cofundador do Google, Sergey Brin, o CEO da Tesla, Elon Musk, o fundador da Amazon, Jeff Bezos, além de políticos como o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, o príncipe da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, e o atual presidente americano, Donald Trump – que admitiu ter tido uma relação de amizade com Epstein e é apontado como frequentador de festas do abusador.

A morte de Epstein ocorreu no auge de um escândalo que revelava a existência de uma rede de prostituição infantil, orquestrada ao menos parcialmente pelo morto, envolvendo figuras do alto escalão do poder mundial. Os abusos teriam ocorrido ao longo de anos, em locais como a mansão de Epstein em Nova York e o avião do bilionário, um Boeing 727 apelidado de "Expresso Lolita", todos frequentados por essas figuras de grande poder, a convite de Epstein, em festas e viagens especiais.

Bill e Jeffrey

Os registros apontam que Bill Gates e Jeffrey Epstein se conheceram em janeiro de 2011, durante uma reunião na mansão de Epstein em Nova York – local onde, segundo múltiplos relatos, Epstein organizava festas onde garotas menores de idade eram abusadas sexualmente. Nessa época, Epstein já era um abusador de menores conhecido, julgado e condenado por ter solicitado serviços de prostituição a uma menor na Flórida.

A relação entre os dois se baseava no interesse mútuo de fazer investimentos em filantropia. Gates mantém sua própria fundação – que analisa e investe em projetos que vão da procura por soluções de saneamento em países africanos, à erradicação da poliomelite e ao desenvolvimento de novos modelos de reatores nucleares para combater o desequilíbrio climático, como visto no recente documentário sobre Gates produzido pela Netflix. Já Epstein – que cultivava o acesso a muitas figuras poderosas no mercado financeiro, no mundo da política e da alta tecnologia – se apresentava como alguém capaz de arrecadar recursos para esses projetos. Epstein, segundo a reportagem, tinha um plano de criar um grande fundo global para financiar soluções voltadas para a melhoria das condições de saúde em países em desenvolvimento – mas, também em seus planos, estava uma taxa, que se reverteria para sua própria conta bancária, cobrada sobre o total da quantia arrecadada.

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Foto de arquivo mostra Gates na entrada da mansão de Epstein junto a executivos do banco de investimentos JPMorgan, de quem Epstein era um importante cliente

No que soa como uma grande incoerência, a fundação de Gates fazia investimentos volumosos pela igualdade de gênero e pelo direito de meninas e mulheres no mundo todo, ao mesmo tempo em que seu criador se reunia – e orientava reuniões de seus assessores mais próximos – com um abusador.

As revelações do New York Times contradizem as recentes declarações de Gates, ao The Wall Street Journal, de que ele "não teve nenhuma relação de negócios ou de amizade" com Epstein.

Segundo a reportagem, um grupo de integrantes da fundação Gates participou de uma reunião com Epstein na mansão dele em 2011, sob as instruções do próprio Gates, onde Epstein admitiu – segundo dois participantes do encontro – que solicitar serviços de prostituição a uma menor de idade não era pior que "roubar um pão".

Ainda assim, a conexão Gates-Epstein se manteve por anos. Outro encontro de funcionários da fundação ocorreria na mansão de Epstein em 2012; Em 2013, Gates pegou "carona" no avião de Epstein – mesmo possuindo sua própria aeronave privativa – em uma viagem para a Flórida; e seis meses depois, ambos se encontrariam novamente para um jantar em Nova York. Finalmente, em 2014, Gates fez um doação de 2 milhões de dólares para o MIT (Massachusetts Institute of Technology) sob direcionamento de Epstein, segundo revelam e-mails internos obtidos pelo New York Times.

Bridgitt Arnold, porta-voz de Gates, afirma ao NYTimes:

"Bill Gates se arrepende de ter conhecido Epstein e reconhece que foi um erro de julgamento tê-lo feito. Gates reconhece que estimular as ideias de Epstein relacionadas à filantropia deu a Epstein uma plataforma desmerecida que estava em desacordo com os valores pessoais de Gates e de sua fundação."

Dias antes de ser encontrado morto, Epstein incluiu o nome de Boris Nikolic como responsável pela execução do seu testamento. Nikolic é amigo pessoal de Bill Gates, trabalhou na fundação, e foi apontado como um dos elos entre Epstein e o cofundador da Microsoft.

Ao público, Nikolic – que hoje gerencia um fundo de investimentos com Gates entre os seus sócios – se disse "chocado" ao encontrar o seu nome citado no testamento de Epstein.

Fonte: The New York Times, Business Insider, Wired