Turquia ajuda secretamente o Estado Islâmico, dizem membros do grupo terrorista


Erdogan

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan

Oficialmente, a Turquia do presidente Recep Tayyip Erdoğan afirma lutar contra o Estado Islâmico – a organização terrorista que tem realizado atentados no mundo todo e que ameaça até o Brasil. Mas, segundo um integrante do ISIS, capturado por forças curdas, o regime turco tem auxiliado os terroristas, financiando-os diretamente, além de oferecer suporte militar e facilitar sua movimentação, inclusive dentro das fronteiras da Turquia.

As informações, publicadas pela rede de jornalismo investigativo Insurge Intelligence, foram veiculadas por duas agências de notícias curdas, a Harwar News Agency (ANHA), localizada em Rojava, na Síria, e a Ajansa Nûçeyan a Firatê (ANF News), baseada em Amsterdã, na Holanda.

O depoimento foi obtido do terrorista Savas Yildiz, capturado pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG) curdas. Ele afirma que o governo de Erdoğan facilita operações do Estado Islâmico na Síria, além de ataques dentro da Turquia.

Yildiz é turco, e se filiou a um grupo jihadista na Síria em 2014. Ele se tornou principal suspeito dos ataques a prédios do Partido Democrático do Povo (HDP), nas cidades de Adana e Mersin, em maio de 2015. O HDP é um partido de oposição ao regime Erdoğan, e principal grupo pró-curdos na Turquia.

Mosul

Filiados ao Estado Islâmico tomam Mosul, a terceira maior cidade do Iraque

Segundo o terrorista, a conexão entre os Estado Islâmico e o governo turco começou em 2014, quando o grupo tomou a cidade iraquiana de Mosul:

“... quando Mosul foi capturada, cerca de 50 pessoas foram mantidas reféns no consulado turco. Elas abriram os caminhos para nós (...). Eles nos deram todo tipo de liberdade de movimentação. Os reféns foram negociados em troca da liberação de 100 de nossos amigos.”

Yildiz afirma que o motivo por trás da cooperação entre a Turquia e o Estado Islâmico seria a conveniência, para o regime Erdoğan, de haver um grupo combatendo as forças curdas na Síria:

“O estado turco e o presidente Recep Tayyip Erdoğan nos apoiam apenas porque ele são contra os curdos. Não que ele seja afeiçoado a nós ou algo do tipo. Ele não tem qualquer relação com o Islã. Ele não nos apoiaria por um dia se nós não lutássemos contra os curdos.”

“O regime turco, os Estados Unidos e o regime iraquiano não são importantes para nós, mas o regime sírio é. Porque nós vemos a Síria como centro do Estado Islâmico que será fundado.”

Ele afirma que há vários pontos na fronteira da Turquia com a Síria onde a passagem de soldados do ISIS é liberada, graças a acordos estabelecidos diretamente com o governo. Ahmet Yayla, ex-chefe do grupo de contra-terrorismo e prevenção ao crime da Polícia Nacional da Turquia, faz afirmações que corroboram com o depoimento do terrorista:

“O governo Erdoğan tem fechado os olhos consistentemente para dezenas de milhares de apoiadores do Estado Islâmico que utilizam o aeroporto de Istambul e a fronteira porosa entre a Turquia e a Síria para se afiliar ao ISIS.”

Yayla publicou um estudo junto à professora Anne Speckhard, da Georgetown University, especialista em fatores psico-sociais conectados ao radicalismo, em que a dupla explora as relações entre o regime turco e o Estado Islâmico, considerado um “segredo aberto” entre os terroristas:

“Apesar das alegações de Erdoğan de que ele está lutando contra o ISIS, as evidências indicam que ele tem sido, e continua sendo, profundamente cúmplice ao permitir o ISIS transportar, não apenas recrutas na Turquia, mas também armas e suprimentos. Esses fatos arrepiantes foram confirmados repetidamente durante nossas entrevistas com integrantes do ISIS.” O livro de Yayla e Anne foi lançado em julho.

Obama

A Casa Branca considera a Turquia "aliada crítica" dos Estados Unidos

Esses relatos, somados a evidências documentais, apontam para um forte e sinistro elo entre o Estado Islâmico e a Turquia, membro de destaque da OTAN e considerada “aliada crítica” pelos Estados Unidos. A pergunta que permanece à luz dessas informações é: quão engajados o ocidente e seus aliados realmente estão na luta contra o ISIS? Infelizmente, a pergunta paira no ar.