Startup que prometia exame de sangue revolucionário enfrenta investigações e CEO pode ser banida do mercado


Elizabeth Holmes

A narrativa era perfeita: Elizabeth Holmes, uma brilhante empreendedora americana sempre vestida em roupa preta de gola alta, muito semelhante ao uniforme utilizado pelo fundador da Apple, Steve Jobs, abandonou os estudos de engenharia química na prestigiosa Universidade de Stanford, celeiro de talentos do Vale do Silício, para fundar a própria companhia com o dinheiro da faculdade. Criada em 2013, a Theranos foi anunciada por revistas e sites de tecnologia como a próxima startup a transformar a medicina com uma técnica supostamente revolucionária capaz de realizar até 30 exames com uma única gota de sangue.

Agora, após receber aportes que somam US$ 400 milhões e ser avaliada em US$ 9 bilhões, essa narrativa começa a esfarelar frente a suspeitas de conduta criminosa por parte da diretoria da Theranos e à possibilidade de Holmes ser banida por até dois anos do mercado laboratorial dos Estados Unidos.

Os primeiros indício de problema apareceram em outubro de 2015, quando o The Wall Street Journal revelou que a startup enfrentava dificuldades com seu principal aparelho, chamado Edison. Segundo um ex-funcionário do alto escalão da Theranos que falou ao jornal em condição de anonimato, a empresa estaria recorrendo a equipamentos tradicionais, da alemã Siemens, para fazer os testes, pois os resultados do Edison não eram confiáveis.

Esse era apenas o início da trama. Numa drástica virada, na semana passada, agências de saúde reguladoras dos Estados Unidos propuseram banir a CEO Elizabeth Holmes e o presidente Sunny Balwani do mercado americano por até dois anos, depois de a dupla ter falhado em adaptar os dois principais laboratórios da empresa às exigências de qualidade desses órgãos. Houve flagrantes de mau acondicionamento de amostras sanguíneas, entre outras negligências consideradas criminosas pela inspeção.

Outra fonte de suspeita levantada pela imprensa está no fato de a mesa de diretores da Theranos ter sido composta quase totalmente por militares, em vez de profissionais da área médica. Por exemplo, entre os escolhidos pela empresa está Henry Kissinger, o controverso ex-secretário de estado americano acusado de crimes de guerra por ter apoiado indiretamente genocídios na Ásia e ditaduras na América Latina, inclusive no Brasil. Além de Kissinger, foram escolhidos como diretores:

  • George P. Shultz - Ex-secretário de estado dos Estados Unidos
  • Gary Roughead - Almirante da marinha americana aposentado
  • William J. Perry - Ex-secretário de defesa dos Estados Unidos
  • Sam Nunn - Ex-senador dos Estados Unidos que já serviu como chairman de um comitê das forças armadas no senado americano
  • James N. Mattis - General aposentado do corpo de marines dos EUA

Agora, com as ações dos órgãos reguladores americanos, a Theranos terá a chance de se defender. Segundo o Wall Street Journal, a empresa já enviou uma defesa, que passa neste momento por revisão das autoridades responsáveis. Paralelamente, a CEO concedeu diversas entrevistas desde o estouro do caso. Em algumas, atacou a reportagem do Journal, acusando-a de condução negligente. Na TV, revelou um lado mais vulnerável, e disse estar “devastada”.

Este episódio ensina, ao menos, uma importante lição: a necessidade de se olhar através do véu das narrativas perfeitas construídas em torno de empresas, líderes e outras figuras de poder. Como os negócios são muitas vezes iniciados com capital privado, proveniente das fortunas pessoais de seus fundadores, suas verdadeiras intenções permanecem inacessíveis aos olhos do público. Afinal, se o discurso quase messiânico de que a Theranos buscava transformar o mundo por meio de um dispositivo revolucionário começa a se revelar (ao menos parcialmente) falso, quais as verdadeiras intenções dessa empresa que tem em sua gênese o apoio das forças armadas dos EUA?

Os mais paranóicos já elaboraram todo tipo de teoria, entre elas a de que a empresa seria apenas fachada para algum tipo de plano mais sombrio. Loucura? Antes de assumir qualquer ponto de vista, vale acompanhar os próximos capítulos dessa história, quando novos detalhes virão à tona.

Em tempo: o nome da empresa lhe despertou curiosidade? Ele tem origem grega e está associado ao verbo caçar.

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