Presidentes homicidas: o que o memorando secreto da CIA diz sobre governar no Brasil


Memorando desclassificado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e trazidos à tona nesta semana pelo pesquisador Matias Spektor da Fundação Getúlio Vargas revelam como ex-presidentes brasileiros estiveram diretamente envolvidos em uma política sistemática de execuções de opositores durante o regime militar.

O documento narra uma reunião, realizada em março de 1974, entre o General Ernesto Geisel, que havia acabado de assumir como presidente, e assessores:

"O grupo informa a Geisel da execução sumária de 104 pessoas durante o governo Médici, e pede autorização para continuar a política de assassinatos. Geisel explicita sua relutância e pede tempo para pensar. No dia seguinte, dá luz verde, mas sob duas condições. Primeiro, 'apenas subversivos perigosos' seriam executados. Segundo, o CIE não mataria a esmo: o Palácio do Planalto, na figura de Figueiredo, teria de aprovar cada decisão, caso a caso."

É abominável tomar conhecimento de documentos que revelam de forma tão direta o caráter homicida da alta cúpula do governo brasileiro. O período militar é uma ferida aberta na história do país, pelas torturas, execuções, e pela criação de aparatos repressores que ainda assombram a sociedade. Mas o documento recém-revelado mostra com maior clareza a extensão do horror.

E mais: ele lança luz sobre as estruturas de um tipo de governo que perdura até hoje – um governar que não tem como prioridade o bem-estar de seus cidadãos, o projeto de um país que seja bom para todos, mas a auto-perpetuação do poder estabelecido, custe o que custar.

Os generais presidentes matavam para se manter no comando. Mas mesmo após a "redemocratização", essa estratégia continuou.

Imaginamos (torcemos?) que mecanismos de execuções ligadas ao Planalto – e às altas instâncias do poder – tenham sido extintos (difícil ter certeza). Mas o assassinato político ainda existe e está em alta no Brasil, vide o caso recente da vereadora Marielle Franco, executada a tiros de submetralhadora MP5 – um tipo de armamento usado por tropas de elite da polícia.

Então, a questão é: o que este documento sobre uma reunião de 1974 fala sobre as atuais estruturas de poder no Brasil?

Vivemos ainda sob um regime que executa seu povo, dissidentes ou não, para garantir a manutenção do poder. Seja por meio de políticas criadas para oprimir a população, pelo uso de forças militares contra seus cidadãos, como visto na repressão de manifestações públicas, ou de assassinatos planejados, executados por militares ou paramilitares conectados ao poder do estado, vivemos em uma realidade bem próxima àquela retratada pelo informante da CIA aos espiões americanos.

É deprimente, mas os fatos precisam ser encarados.

O memorando da CIA, que tinha como destino final o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger – famoso por ter encampado uma estratégia global de apoio a ditaduras e considerado criminoso de guerra por influenciar em políticas que culminaram em genocídios em países asiáticos – soa em 2018 como um lembrete; uma lembrança do quão longe o poder estabelecido pode chegar para se manter onde está.

O documento nos ajuda a compreender a realidade em que estamos inseridos, e principalmente, nos provoca a buscar alternativas radicalmente opostas àquelas que até hoje comandaram os destinos de nossa sociedade.


Marcus Couto é jornalista e edita a Hackpedia