Por que pessoas más fracassam (ao menos na tecnologia)

Gilded

Este texto foi escrito por Paul Graham e publicado originalmente em sua página pessoal. Paul é empreendedor, investidor e um dos maiores mentores do Vale do Silício, fundador da aceleradora Y Combinator. Nessas funções, ele ajudou no crescimento de empresas como Reddit, Airbnb e Dropbox. Paul autorizou a tradução e publicação deste artigo na Hackpedia.

Recentemente, me chamou atenção como poucas das pessoas mais bem sucedidas que conheço são más. Há exceções, mas incrivelmente poucas.

A maldade não é rara. Na verdade, uma das coisas que a internet nos mostrou foi como as pessoas podem ser más. Poucas décadas atrás, apenas pessoas famosas e escritores profissionais conseguiam publicar suas opiniões. Agora todos fazem isso, e podemos enxergar toda a cauda longa de maldade que antes se escondia.

E ainda que haja claramente muita gente má por aí, quase não há pessoas más entre as mais bem sucedidas que eu conheço. Por quê? Maldade e sucesso são inversamente proporcionais?

Parte do fenômeno, claro, é uma distorção de amostragem. Eu só conheço pessoas que trabalham em certas áreas: fundadores de startups, programadores, professores. Pode ser que pessoas de sucesso em outros campos sejam más. Talvez administradores de fundos de capital sejam maus; não conheço o suficiente para dizer. Parece bem provável que a maioria dos traficantes de drogas de sucesso sejam maus. Mas há pelo menos um grande pedaço do mundo em que pessoas más não comandam, e esse território parece estar crescendo.

Minha mulher e cofundadora da Y Combinator Jessica é uma dessas raras pessoas que têm visão raio-x para caráter. E estar casado como ela é como estar ao lado de um scanner de bagagens de aeroporto. Ela veio ao mundo das startups de um banco de investimentos, e sempre se impressionou com a consistência com que fundadores de startup bem sucedidos acabam se revelando boas pessoas, e como pessoas más falham como fundadores.

Por quê? Acho que há várias razões. Uma delas é que ser mau faz você estúpido. É por isso que eu odeio brigas. Você nunca faz seu melhor trabalho em uma briga, porque elas nunca são suficientes. Você não vence brigas pensando em grandes ideias, mas em truques que funcionem em um caso em particular. E, apesar disso, brigar custa tanto quanto pensar em problemas reais. O que é particularmente doloroso para alguém que se importe com a forma como seu cérebro é utilizado: ele vai rápido mas não vai a lugar algum, como um carro cantando pneu.

Startups não vencem atacando. Elas vencem transcendendo. Há exceções, claro, mas geralmente a forma de ganhar é correr para frente, e não parar e brigar.

Outra razão que faz fundadores maus falharem é que eles não conseguem que as melhores pessoas trabalhem para eles. Eles conseguem contratar pessoas porque elas precisam do trabalho. Mas as melhores pessoas têm outras opções. Uma pessoa má não consegue convencer as melhores pessoas a trabalhar com ele a menos que seja super convincente. E enquanto ter as melhores pessoas ajuda qualquer organização, esse é um fator crítico para startups.

Também há uma força complementar em ação: se você quiser construir coisas grandiosas, ajuda ser movido por um espírito de benevolência. Os fundadores de startups que acabam mais ricos não são os movidos pelo dinheiro. Os movidos pelo dinheiro aceitam a grande oferta de aquisição que quase toda startup de sucesso consegue em seu caminho. Os que continuam são movidos por alguma outra coisa. Eles podem não falar isso explicitamente, mas geralmente estão tentando melhorar o mundo. O que significa que pessoas com um desejo de melhorar o mundo têm uma vantagem natural.

A parte empolgante é que startups não são apenas um tipo qualquer de trabalho em que maldade e sucesso são inversamente proporcionais. Esse tipo de trabalho é o futuro.

Ao longo da maior parte da história, sucesso significou controle de recursos escassos. Para isso era preciso lutar, seja literalmente no caso dos nômades pastores empurrando caçadores para terras marginais, ou metaforicamente no caso de financiadores brigando entre si para formar monopólios de vias férreas nos Estados Unidos. Ao longo da história, sucesso significou ganhar em jogos de soma zero. Na maior parte deles, maldade não era um problema, mas provavelmente uma vantagem.

Isso está mudando. Cada vez mais, os jogos que importam não são de soma zero. Você ganha não lutando para obter controle de recursos escassos, mas tendo novas ideias e construindo coisas novas.

Há muito tempo houve jogos em que você ganhava com novas ideias. No terceiro século antes de Cristo, Arquimedes venceu fazendo isso. Pelo menos até o exército romano invasor matá-lo. O que ilustra por que essa mudança está ocorrendo: para novas ideias importarem, é preciso um certo grau de ordem civil. E não apenas não estar em guerra. Você também precisa prevenir o tipo de violência econômica que os magnatas do século dezenove praticavam entre si e países comunistas praticavam contra seus cidadãos. As pessoas precisam sentir que o que elas criam não será roubado.

Arquimedes

Este sempre foi o caso de pensadores, motivo pelo qual essa tendência tenha começado com eles. Quando você pensa em pessoas de sucesso na história que não foram cruéis, você chega a matemáticos, escritores e artistas. A parte empolgante é que o modus operandi deles parece estar se espalhando. A estratégia dos intelectuais está vazando para o mundo real, e isso está revertendo a polaridade histórica da relação entre maldade e sucesso.

Estou muito feliz por ter parado para pensar sobre isso. Jessica e eu sempre trabalhamos duro para ensinar nossas crianças a não serem más. Nós toleramos barulho e bagunça e junk food, mas não maldade. E agora eu tenho um motivo adicional para contê-la, e um argumento a mais ao fazer isso: ser mau faz você fracassar.