O Facebook criou um grupo para pesquisar a blockchain. Mas o que isso significa?


Não existem dúvidas quanto à relevância da tecnologia da blockchain hoje. O sistema funciona como um tipo de livro de registros digital aberto, que garante a transparência de transações e valida registros de ativos em ambiente virtual, como criptomoedas.

Ele foi inventado em 2008 por Satoshi Nakamoto, criador do bitcoin, para servir como uma garantia de que a moeda funcionaria independente de um controle central. Deu certo. Com sua arquitetura inovadora, a blockchain estabeleceu um sistema seguro, baseado em blocos de informação sequenciais associados a elementos criptográficos que eliminam, por exemplo, o risco de uma unidade de valor ser duplicada e usada mais de uma vez em transações.

Essa característica básica da blockchain – ser capaz de validar registros e transações – pode ser usada para inúmeros fins. Da Wikipedia:

"Isso torna as blockchains potencialmente úteis para o registro de eventos, registros médicos e outras atividades, como gerenciamento de identidade, processamento de transações, comprovação de documentos, rastreabilidade de comida ou voto."

Já existem empresas e órgãos governamentais no mundo todo testando a blockchain e até o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) criou uma iniciativa de pesquisa para explorar a tecnologia como forma de garantir a transparência e rastreabilidade de seus empréstimos.

Então faz todo sentido que o Facebook, a maior rede social do mundo com mais de 2,2 bilhões de usuários, esteja iniciando uma pequena divisão dedicada à pesquisa da blockchain. O anúncio foi feito pelo executivo David Marcus, que está deixando a liderança do time responsável pelo desenvolvimento do Messenger depois de quatro anos para assumir as responsabilidades pela nova iniciativa:

"Estou criando um pequeno grupo para explorar formas de aproveitar a Blockchain em todo o Facebook, começando do zero", disse Marcus.

O executivo já ocupou a posição de CEO do PayPal e atualmente faz parte do conselho da Coinbase, empresa especializada na compra e venda de criptomoedas. Assim, sua experiência com transações digitais faz dele uma escolha natural para o cargo. Ainda não há detalhes sobre o resto time, além de que o vice-presidente de produto do Instagram, Kevin Weil, também vai participar.

Mas o que o Facebook estaria buscando ao criar uma divisão de pesquisa da blockchain?

Em janeiro deste ano, o CEO da empresa, Mark Zuckerberg, escreveu um post dizendo que neste ano ele estaria comprometido em solucionar muitos dos problemas que assombram a rede social, como a proliferação de discurso de ódio, ameaças de governos e de brechas na privacidade dos usuários – algumas das questões que levaram Zuckerberg a testemunhar no senado americano e a pedir desculpas.

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Nesse mesmo post, o CEO discutiu duas tendências antagônicas dentro do mercado de tecnologia: a de centralização oposta à de descentralização. Ele falou sobre como muitos viam, nos anos 1990 e 2000, a tecnologia como uma poderosa ferramenta descentralizadora – capaz de empoderar indivíduos e, consequentemente, o coletivo. E como essa visão foi de certa maneira frustrada pela maneira como o mercado evoluiu, com a consolidação um pequeno grupo de mega-corporações (do qual o próprio Facebook faz parte) e do uso de ferramentas de software por governos e órgãos estatais na vigilância de seus cidadãos.

Mas Zuckerberg lembra que, na contramão dessa tendência, existem outras tecnologias de alto poder descentralizador – criptografia, criptomoedas e blockchain, por exemplo. Em seu texto, o CEO do Facebook diz que ao longo de 2018 pretende estudar mais profundamente essas soluções para eventualmente aplicá-las dentro da empresa. Mas como isso poderia ser feito?

Como já foi dito, a blockchain pode ser usada de muitas maneiras. Num contexto em que os perfis na rede social se tornam mais relevantes, aproximando-se até de uma forma de identidade virtual, a blockchain poderia ser usada para atestar a veracidade desses perfis, ao ponto de eles poderem ser integrados a serviços no plano físico – como registros usados por órgãos oficiais do governo, por exemplo. Hoje, utilizamos o nosso perfil do Facebook para nos conectar a outros sites de forma mais rápida, agora imagine poder fazer o mesmo para serviços em sua cidade. A blockchain poderia ser uma resposta – o elemento que falta para o perfil do Facebook se tornar uma espécie de RG ou CPF virtuais, possível de ser usado em bancos, para tomar empréstimos, se cadastrar em hospitais, e quem sabe até votar.

Além disso, com a implementação de uma blockchain, o Facebook poderia sofisticar o seu sistema de troca de dinheiro que já existe dentro do aplicativo Messenger (criado sob o comando de Marcus) e até lançar a sua própria criptomoeda, para ser usada dentro da rede social – uma moeda do Facebook!

Essas são apenas algumas das possibilidades. Exercitando a imaginação, é fácil perceber como são variados os possíveis casos de uso da blockchain em uma rede grande como o Facebook. Mas talvez a reflexão mais importante seja a que nos leva de volta ao que Mark Zuckerberg escreveu no início do ano sobre centralização versus descentralização.

Talvez esteja aí a chave para a charada do futuro do Facebook.

Ao seguir em sua exploração da blockchain, com possibilidades como a de criar sua própria moeda, a empresa pode estar tomando um caminho de descentralização, mas em relação a todo o ecossistema que a cerca – seria, de certa maneira, um grito de independência do Facebook em relação a um sistema que parece estar cada vez mais interessado em se apropriar dos dados e dos ativos acumulados pela rede. Como durante o recente caso da Cambridge Analytica, quando houve discussões sobre a possibilidade de a rede ser de alguma forma "supervisionada" por órgãos estatais – o que seria desastroso.

Assim, investir em uma tecnologia como a da blockchain – que, por design, é segura e favorece a proteção de dados – poderia ser uma maneira de assegurar a independência da rede, e de garantir um espaço livre aos usuários, onde eles estariam a salvo da interferência de nações estado; onde eles poderiam realizar transações de valores e outras atividades em um ambiente neutro.

Não seria algo totalmente novo para a empresa, que ao criptografar de ponta a ponta as mensagens que trafegam pelo WhatsApp, encontrou uma maneira eficiente de proteger a privacidade dos seus usuários contra pedidos arbitrários de quebra de sigilo vindos de governos, inclusive do brasileiro.

Anarquia capitalista? Seja bem-vindo a um país chamado Facebook!


Marcus Couto é jornalista, edita a Hackpedia, e escreve há um bom tempo sobre tecnologia e cultura pop.