Childish Gambino, Kanye West e a discussão sobre o conflito étnico na internet


Um dos debates mais relevantes do momento nos Estados Unidos (e no mundo todo), em torno da questão racial, especialmente da violência cometida contra os negros, muitas vezes pela própria força policial, ou por grupos supremacistas brancos, está acontecendo na internet, e tem como ferozes debatedores artistas que atuam em uma arena específica: o rap.

Dois cantores acabam de lançar faixas que, por vias distintas, abordam a mesma questão, e mesmo que pareçam se contrapor em seu discurso, coincidem na construção de um diálogo plural em torno do tema – além de legar ao mundo peças criativas de profundo significado.

Kanye West e Childish Gambino publicaram músicas que geraram ondas pela internet, e incendiaram o debate, por motivos diferentes.

West – que nos últimos meses se colocou sob fogo pesado por ostentar um boné com o mesmo slogan usado por Donald Trump e elogiar o presidente americano, conhecido por representar a visão de supremacistas brancos – lançou "Ye vs The People". Na faixa, ele discute com o rapper, amigo e colaborador T.I. sobre suas últimas atitudes, motivações, as consequências sociais e pessoais de suas falas. T.I. questiona o posicionamento de West, que ele acusa de estar alinhado a racistas americanos, e cobra uma posição diferente do rapper. T.I. é duro, acusa West de ser egoísta, teimoso, e de falar como se fosse uma "cadela drogada".

Kanye – que no passado já se envolveu em muitas outras polêmicas envolvendo suas letras hiper-masculinizadas e comportamento agressivo – se defende e diz, em contraponto, estar em busca de uma posição que reúna negros e brancos em um mesmo espaço, sob um mesmo slogan, no caso, o "Make America Great Again" ressignificado com "amor e afeição". Ele admite que Trump o inspira na ideia de se candidatar à presidência dos Estados Unidos, e que ele acredita ser capaz de atuar como uma ponte em uma sociedade fraturada pelo histórico de opressão étnica.

Aparentemente, Childish Gambino tem pretensões menos grandiosas que as de West (pelo menos ele ainda não anunciou sua candidatura à presidência), mas sua "This Is America" explodiu como uma granada de verdades estampadas de forma crua e violenta em um clipe genial – onde o cantor reencena, de maneira irônica, cruel e poética, episódios de violência cometida contra negros. O artista dança em uma sequência de referências a ícones do racismo americano, mostrando a realidade de um país que se esforça para esconder suas feridas sociais por trás de uma cultura pop pasteurizada.

Tanto "Ye vs the People" quanto "This Is America" provam o poder da arte em direcionar o debate em torno de assuntos urgentes, e trazer à tona discussões que, do contrário, estariam ainda mais escondidas sob as ondas do inconsciente coletivo, borbulhando à espera de encontrar vazão em mentes desequilibradas e violentas capazes de cometer atrocidades contra seus próprios irmãos.


Marcus Couto é jornalista, edita a Hackpedia, e escreve há um bom tempo sobre tecnologia e cultura pop