Elon Musk: salvador da Terra ou gênio do mal?


Já houve muitos grandes empreendedores a fazer história neste planeta. Engenheiros que deixaram sua marca na trajetória humana. De James Watt e suas melhorias no motor a vapor, essenciais à revolução industrial, a Santos-Dumont, Ford, Masaru Ibuka, da Sony... Dentro do contexto mais recente da eclosão digital e dos computadores pessoais, temos outras lendas, como Steve Jobs, Bill Gates, Larry Ellison… Personalidades que alavancaram o desenvolvimento da nossa sociedade por meio de seu talento e capacidade de inovação.

Mas, na última década, um homem vem conquistando seu próprio lugar nessa galeria dos grandes inovadores da humanidade. Ele nasceu em Pretoria, na África do Sul, mas foi na América que ele iniciou seu império tecnológico. Hoje, aos 46 anos, Elon Musk é proprietário de um rol impressionante de empresas.

A série de empreendimentos, que começou com a empresa de software Zip2, vendida para a Compaq por 341 milhões de dólares, evoluiu para a criação da PayPal, vendida ao eBay por 1.5 bilhão de dólares. Com o dinheiro do negócio, Musk deu início a um novo estágio em sua trajetória, com aquisições e fundações de empresas que hoje ocupam uma parte central do seu "Master Plan", nome que ele dá ao seu plano de expansão global.

Talvez, o que diferencie Elon Musk de outros empresários seja a sua capacidade de atuar em múltiplos campos da engenharia, e de trabalhar nessas frentes de maneira integrada, em favor de uma visão única. Uma visão de como o futuro deve ser. Ele utiliza cada uma de suas empresas como uma peça na estratégia de atingir esse objetivo. E passo a passo, ele está construindo esse futuro.

Musk fala abertamente sobre os seus planos. Resumidamente, ele diz trabalhar para "consertar" a humanidade, que, na sua visão (bem fundamentada), caminha em ritmo acelerado para um ponto de colapso. Ele cita, por exemplo, a questão dos combustíveis fósseis, que ameaça, em suas palavras, atirar a raça humana numa nova "Idade das Trevas" após o seu esgotamento. De olho no problema, Musk investiu em soluções de energia renovável por meio da SolarCity e da Tesla, que hoje se reúnem sob o nome da última. Painéis solares, baterias domésticas para armazenagem de energia e carros elétricos são alguns dos produtos criados e comercializados pela empresa com grande sucesso.

Tesla O sedã Model S, fabricado pela Tesla

Hoje, a Tesla vale cerca de 53,5 bilhões de dólares, o que faz dela a montadora de veículos mais valiosa dos Estados Unidos, graças ao lançamento bem sucedido do Model 3, seu carro mais popular. E a visão do CEO vai muito além.
Os investimentos em tecnologias de energia renovável se encaixam com outra peça importante no plano de Musk:

O setor de transportes

Ele tem ao menos três projetos em andamento nessa área, em estados mais ou menos avançados de realização.

O primeiro está sendo viabilizado por uma empresa que ele nomeou The Boring Company (um trocadilho com a palavra em inglês "Boring" que pode ser traduzida como "chata" ou "escavadora"). O plano é abrir uma malha de túneis subterrâneos que seriam usados como uma alternativa ao tráfego de superfície. Os carros e módulos de transporte coletivo especialmente projetados seriam acoplados a um sistema de trilhos, que transportariam os veículos a uma velocidade de mais de 240 quilômetros por hora. Esta é a iniciativa mais avançada até o momento, com um trecho sendo atualmente construído em Los Angeles, entre as vias 405 e 101.

The Boring Company Imagem do túnel que a The Boring Company está construindo sob Los Angeles

O segundo é o Hyperloop, um projeto mais experimental, que busca viabilizar um sistema, também debaixo da terra, onde cápsulas transportariam passageiros a velocidades de até 1,200 quilômetros por hora. Musk conta com o auxílio de terceiros no desenvolvimento dessa iniciativa, e chegou a realizar concursos abertos para solucionar alguns de seus desafios.

O terceiro é ainda mais ousado, e se baseia na ideia de que foguetes tripulados poderiam ser usados para o transporte de passageiros, acoplando em uma nave na órbita terrestre, para depois enviá-los a qualquer outra localidade do globo, mesmo que do outro lado do mundo, em menos de 30 minutos. Soa como um cenário de ficção científica? Por mais mirabolante que pareça a ideia, não seria a primeira vez em que Musk dobraria as fronteiras do possível.

Vídeo conceito do projeto de transporte por foguetes

Tudo isso soa muito empolgante, mas há algumas questões a serem consideradas antes de pularmos de cabeça no séquito de entusiastas do empresário.

Uma delas é o fato de que o plano de Musk não é completamente transparente. Apesar de revelar as linhas gerais de suas metas, os detalhes da estratégia não são claros. Talvez isso tenha sido menos preocupante no passado, quando os empreendimentos de Elon se restringiam à energia solar e aos carros elétricos. Mas, gradualmente, o empresário foi ampliando seus investimentos em áreas mais sensíveis, inclusive do ponto de vista ético.

I.A.

Por exemplo, no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial. Elon já veio a público inúmeras vezes, em entrevistas e no seu Twitter, falar sobre os perigos da I.A., chegando a sugerir que uma disputa entre as grandes potências pelo domínio dessa tecnologia seria a causa mais provável para o início de uma Terceira Guerra Mundial. Mas, ao mesmo tempo, ele é um dos maiores investidores no seu desenvolvimento, seja na visão computadorizada que equipa o piloto automático dos veículos da Tesla, seja em projetos experimentais como o que criou um robô imbatível no game de estratégia Dota 2. Ele até lançou uma organização sem fins lucrativos, chamada OpenAI, para fazer avançar as pesquisas na área de maneira que ele considera "segura".

Mas talvez a iniciativa mais questionável de Elon seja também a sua mais recente: uma empresa que pretende criar formas de conectar o cérebro humano ao computador. O projeto, chamado Neuralink, foi revelado pelo jornal The Wall Street Journal em março de 2017, como uma iniciativa no sentido de ampliar o poder cognitivo do cérebro humano, justamente para evitar que ele seja superado pelo poder de processamento da inteligência artificial. "A Neuralink está desenvolvendo interfaces ultra rápidas para conectar humanos e computadores", diz o texto disponível no site da empresa.

Apesar disso, o projeto está em grande parte coberto por mistério. Em uma recente troca de farpas com o autor da matéria do WSJ pelo Twitter, por exemplo, Elon negou que a empresa esteja buscando financiamento, sugerindo que ela já tenha encontrado sua fonte de dinheiro. Os investidores, no entanto, não são todos conhecidos. Aparentemente, a estratégia inicial era de construir a empresa toda em segredo, não fosse pelo furo de reportagem do Wall Street Journal, que revelou os planos do empresário.

Por que manter debaixo dos panos uma iniciativa tão sensível, que planeja utilizar técnicas cirúrgicas para realizar implantes cerebrais em humanos, considerando os possíveis questionamentos éticos do projeto? Quem são esses investidores secretos? Qual o objetivo último da Neuralink, além das afirmações vagas divulgadas até agora? Essas são algumas das perguntas sem resposta.

Salvador ou gênio do mal?

Por fim, a nova empresa de Musk levanta um questionamento ainda maior. O empresário tem planos grandiosos, que muitas vezes contam com dinheiro do governo dos Estados Unidos (como é o caso da parceria entre a Nasa e a SpaceX, sua empresa de foguetes), para construir uma visão de futuro. Mas esse é o futuro que a humanidade necessita e deseja? Por exemplo, transporte subterrâneo. Será esse o nosso destino, viver se deslocando em túneis debaixo da terra? Ou, no caso da Neuralink, ter os nossos cérebros conectados ao computador 24 horas por dia? Esses dois cenários não soam particularmente animadores. Ainda assim, Musk trabalha arduamente para torná-los realidade.

Infelizmente, Elon não tem uma visão otimista sobre o futuro da espécie humana. Segundo o empresário, o objetivo último da SpaceX, e talvez o mais ousado de sua carreira, seja criar uma colônia habitável em Marte, para um pequeno grupo de escolhidos. Seria, em suas palavras, uma garantia de sobrevivência da espécie caso a experiência humana fracasse na Terra. E aparentemente, ele não aposta muitas fichas no homem. A SpaceX já é considerada uma empresa bem-sucedida, realizando voos regulares de reabastecimento da Estação Espacial Internacional, parte de seu contrato com a NASA. Atualmente, ela trabalha no desenvolvimento das tecnologias de propulsão e de cápsulas que seriam usadas numa viagem até Marte.

Vídeo conceito da SpaceX sobre uma futura viagem tripulada a Marte

Assim, o futuro imaginado por Musk começa a soar mais com uma distopia sombria, com direito a cidades subterrâneas e multidões de zumbis com implantes cerebrais, conectados a uma super-inteligência artificial, do que uma utopia sustentada por energia solar e veículos elétricos, como parecia no início.

Qual será, então, o destino final de seu Master Plan? Será que Elon Musk vai se revelar o salvador da Terra, como muitos esperam, ou um gênio do mal?

Torcemos pelo melhor, mas é esperar para ver.

E você, o que acha? Elon Musk está construindo um futuro positivo ou sombrio para a humanidade? Deixe a sua opinião nos comentários!