Conexão entre cérebros e computadores: essa é uma boa ideia?


Estamos cada vez mais conectados à tecnologia. Nossos smartphones são uma extensão de nossos corpos – cérebros auxiliares que podemos acessar sempre que desejarmos, ou quase sempre, a menos que suas baterias já tiverem sido exauridas pelo nosso consumo excessivo. Mas até mesmo este problema será em breve solucionado, com a introdução de baterias mais duráveis e eficientes.

Mergulhamos nas estruturas das máquinas. Há poucos anos, nossa interface se limitava a um mouse e um teclado, usados para interagir com terminais grandes e desajeitados. Hoje, esse contato é muito mais íntimo e profundo. Tocamos e deslizamos nossos dedos pelas telas de computadores portáteis – sejam eles iPhones ou tablets.

Experimentamos ainda a expansão da tecnologia de realidade virtual, que nos coloca, por meio de nossas retinas, em ambientes construídos digitalmente. De novo, há ainda algumas questões a serem otimizadas, como a resolução das lentes desses headsets, e a portabilidade deles – o que nos leva ao Google Glass, que proporciona ao usuário uma experiência de realidade aumentada, com acesso a informações de meteorologia e rotas projetadas em uma pequena lente instalada em uma armação de óculos.

Todos esses projetos nos contam uma história: há uma tendência no sentido da imersão do homem na máquina (ou da máquina no homem); a aproximação desses dois reinos. A diminuição da barreira que separa orgânico do inorgânico. E é nesse campo que há empreendedores trabalhando.

Algumas dessas iniciativas levam a ideia ao extremo – conectar diretamente o cérebro humano a computadores, por meio de implantes.

A ideia tende a soar bizarra, assustadora, digna de roteiro de filme macabro de ficção científica. E não é à toa. As principais referências que temos desse tipo de tecnologia em nossa cultura tendem a retratá-la por um viés distópico.

Neuromancer, o romance icônico de William Gibson, e seus derivados, como a trilogia Matrix, retratam um futuro destroçado, onde o elo neurológico entre homens e máquinas se dá num cenário que, pelo menos no caso de Matrix, serve como instrumento para a escravização da raça humana.

Mas é claro que, em nosso mundo "real" – as aspas valendo para o quão real você acredita que seja essa experiência que estamos vivenciando – as coisas são bem mais sutis e complexas. Aí entra a profunda – e perturbadora – questão: investir no desenvolvimento de tecnologias de conexão neural entre homens e computadores é uma boa ideia?

Elon Musk, o controverso empreendedor dono da Tesla e da SpaceX, pensa que sim. Ele lançou uma empresa chamada Neuralink – que, segundo o seu site, "desenvolve interfaces cérebro-máquina seguras e de alta velocidade".

Mas qual seria o objetivo de uma tecnologia desse tipo?

Como toda oratória vinda das empresas do Vale do Silício, a fala se concentra na ideia de proporcionar ao mundo algo que se aproxime do mágico: discurso que Steve Jobs usou para construir uma empresa que de utopia tecno-espiritualista se deteriorou para uma grife de luxo sem alma.

Musk até contratou o cartunista Tim Urban para ilustrar sua visão por trás da Neuralink, talvez para suavizar o fato de que o cerne da sua empreitada seja instalar chips elétricos nos cérebros de seres humanos, e que isso traz inúmeras questões éticas e de segurança, e que o caminho até o amadurecimento dessa tecnologia não tende a ser nada bonito – pelo contrário.

O empresário, que tem feito fama pelo seu sucesso produzindo lança-chamas, carros elétricos e tecnologia de piloto automático (infelizmente envolvida em alguns acidentes fatais), além de foguetes capazes de pousar de volta na base de lançamento em posição vertical, "quase como mágica", argumenta que os seus motivos são nobres: inicialmente, auxiliar no tratamento de doenças e traumas neurológicos. Depois, expandir as capacidades do cérebro humano. Viabilizar uma espécie de telepatia entre indivíduos conectados à rede, e facilitar a relação com sistemas de inteligência artificial – outro campo que também se expande rapidamente, inclusive com dinheiro de Musk no caso da OpenAI.

Aí se abre um vasto campo de indagações a respeito das possíveis utilidades e segurança desse tipo de tecnologia. Um primeiro ponto, mais óbvio, é que esta é uma iniciativa privada, e sendo assim, precisará de um modelo de negócio de algum tipo – previsto inclusive no cartum encomendado por Musk. Como a startup vai fazer dinheiro? Vender a expansão de capacidade cerebral como um serviço? Exibir publicidade impressa diretamente em nossas mentes?

Se hoje existe um grande debate em torno da privacidade e da disponibilidade de dados privados em redes sociais como o Facebook, essa questão seria ainda mais sensível e urgente com o acesso direto ao cérebro humano. Haveria algum tipo de limite na coleta de dados?

As questões técnicas e principalmente éticas são tantas e tão graves, que é difícil acreditar que alguém esteja indo adiante com essa ideia. Quem controlaria esses processos? Onde os dados ficariam armazenados? Quem teria acesso a eles?

Chip

Chip2 Exemplos de implantes neurológicos

A DARPA – divisão do departamento de defesa dos Estados Unidos que investe em tecnologias disruptivas com potencial para aplicações militares – é um dos órgãos que já mostrou interesse na exploração da conexão homem-máquina. O Facebook também já teve sua própria iniciativa na área, mas a líder do projeto saiu da empresa e desde então não se ouviu mais falar dele.

Basicamente, o que a Neuralink de Musk deseja fazer é criar implantes simples, pequenos, fáceis de se instalar, e capazes de manter uma conexão de alta velocidade.

Mas imagine: uma vez instalado, o usuário abriria permanentemente a porta de seu cérebro para um sistema operado dentro de uma caixa-preta. Musk diz que um dos objetivos seria facilitar a interação com a inteligência artificial. Mas como funcionaria essa interface?

São muitas as questões. É fácil imaginar uma série de outras possibilidades pouco éticas para a tecnologia da Neuralink e de outras empresas semelhantes. Sem falar na possibilidade de essas iniciativas receberem investimentos de agências governamentais e outros órgãos não divulgados, e do fato de o Vale do Silício ter um histórico de se movimentar rápido demais – às vezes quebrando coisas pelo caminho, como o caso das tecnologias de piloto automático da Tesla e da Uber, que já ocasionaram acidentes fatais.

Pense num futuro em que esse tipo de implante seria anunciado com slogans sedutores: "amplie a sua capacidade cognitiva! Instale um chip da Neuralink!"

Musk, que é viciado no Twitter, falou sobre a Neuralink em seu perfil três vezes apenas, e em uma delas parecia irritado quando a origem do dinheiro usado no financiamento da empresa – não divulgado – foi questionado por um jornalista, o mesmo que divulgou a história a respeito da fundação da startup, que até aquele momento era um segredo enterrado em uma pilha de documentos legais em um distrito da Califórnia.

Mas, apesar de todas essas questões, o negócio está seguindo em frente, e os problemas éticos já começam a se concretizar. Até que a tecnologia chegue a um nível considerado seguro, e comecem as provas clínicas em humanos, ela terá que passar por uma série de testes em animais.

Inicialmente, em roedores, camundongos, mas em algum estágio, em animais maiores, com cérebros de tamanho semelhante ao nosso. Em um momento em que a sociedade e a indústria se movimentam no sentido oposto aos testes e à crueldade animal, a empresa de Musk conseguiu autorização para realizar seus experimentos.

O empresário acredita que em cerca de dez anos ele terá os primeiros chips prontos para o teste em humanos. A julgar pelo seu histórico, são grandes as chances de ele realizar a façanha. Mas, neste caso, ainda não está claro se isso é algo bom ou ruim.


Marcus Couto é jornalista, edita a Hackpedia, e escreve há um bom tempo sobre tecnologia