CEO da Uber deixará o cargo temporariamente após acusações de assédio na empresa


A crise envolvendo a americana Uber, criadora do popular aplicativo de táxi particular, atingiu hoje os mais altos rankings da empresa, após divulgação de um extenso relatório produzido por uma investigação após denúncias de assédio moral e sexual dentro do ambiente de trabalho. O CEO e fundador, Travis Kalanick, anunciou que deixará temporariamente o cargo, e aproveitará a pausa para refletir sobre suas responsabilidades, e sobre como trabalhará para criar uma liderança do que chamou "Uber 2.0".

Kalanick também apontou a recente morte de sua mãe, vítima de um acidente de barco, como um dos motivos que o levaram à decisão de se afastar. Ele não informou por quanto tempo vai se ausentar, mas que continuará à disposição para "decisões estratégicas".

A Uber é conhecida há anos por sua cultura problemática. Ex-funcionários acusam a empresa, que hoje opera em 570 cidades do mundo todo, de fomentar um ambiente de trabalho tóxico, sexista, onde práticas de assédio moral e sexual são tolerados, inclusive por líderes nos cargos mais altos da empresa. É um consenso que Kalanick foi, de certa forma, tolerante com essas práticas, ou pelo menos não atuou de forma contundente o bastante para barrá-las.

Emil Emil Michael, um dos demitidos, era o número 2 da empresa. VP de negócios, ele foi acusado, entre outras coisas, de sugerir investigar jornalistas. Foto: CNBC

Uma investigação foi instalada, 20 funcionários foram demitidos, uma nova vice-presidente de liderança e estratégia foi contratada, junto a uma nova líder de branding. Mas as mudanças completas no topo da hierarquia ainda não tinham sido anunciadas. O polêmico Emil Michael, VP de negócios e braço-direito de Kalanick, envolvido em algumas das acusações, foi demitido, e será substituído por David Richter, considerado mais reservado e popular entre os funcionários. Richter se torna, assim, o número 2 da empresa.

O que muda?

Além da demissão de Michael, a investigação conduzida pelo escritório de advocacia Covington & Burling sugeriu que o poder do CEO fosse diluído e distribuído pelos vice-presidentes. Outras sugestões também chamam a atenção, como a de haver uma diminuição na quantidade de festas promovidas pela empresa. Em um e-mail que ficou famoso, Kalanick orientava os funcionários a respeito de regras de conduta sexual durante um retiro corporativo.

Após a divulgação do relatório, o departamento de recursos humanos da Uber informou algumas medidas que serão implementadas com objetivo de mudar a cultura da empresa, entre elas a criação de um posto executivo de promoção da diversidade, além de alterações na forma como gestores são avaliados.

Essas mudanças serão suficientes? Aparentemente, será necessário um longo processo de transformação. Exemplo: durante a reunião sobre o relatório da investigação que concluiu haver uma cultura sexista na Uber, um dos integrantes do conselho, David Bonderman, da firma de investimento TPG Capital, fez uma piada infeliz enquanto a empresária Arianna Huffington discursava.

Huffington trazia dados que mostravam que, quando há uma mulher no conselho de uma empresa, as chances de haver uma segunda são muito maiores. Bonderman a interrompeu durante sua fala para soltar o seguinte comentário: "Na verdade, o que isso mostra é que aumentam as chances de haver mais falatório."

Fonte: Recode Foto: Steve Jennings/Getty Images for TechCrunch